A psicanalista Taiza Tosatt Eleoterio, em sua experiência, observa que o erro mais comum e recorrente ao falar sobre relacionamento tóxico é usar esse termo, de forma genérica e imprecisa, para descrever situações que, na verdade, envolvem abuso e controle sistemático e deliberado.
Essa confusão de linguagem, embora pareça apenas uma questão de vocabulário sem grande importância prática, tem consequências reais e concretas sobre como a situação é compreendida por quem a vive de perto e sobre o tipo de ajuda que essa pessoa acaba buscando em seguida, muitas vezes de forma equivocada.
O erro comum: chamar de “tóxico” o que é abuso
Termos como “relacionamento tóxico” se popularizaram bastante nos últimos anos, especialmente em conversas cotidianas e redes sociais, e passaram a ser usados para descrever praticamente qualquer dinâmica desconfortável entre duas pessoas, desde brigas frequentes até controle constante, ameaças veladas e até violência física direta.
Essa generalização apaga uma diferença conceitual bastante importante: relacionamento tóxico costuma envolver desgaste mútuo entre as duas partes envolvidas, enquanto abuso envolve um desequilíbrio de poder consistente e unilateral, em que uma pessoa exerce controle deliberado sobre a outra. Taiza Tosatt Eleoterio ressalta que tratar os dois como sinônimos minimiza a gravidade real do segundo.
Por que essa confusão de linguagem acontece com tanta frequência?
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que “tóxico” é uma palavra bem mais leve e suave, menos assustadora de pronunciar e de ouvir em voz alta, o que a torna consideravelmente mais confortável tanto para quem vive a situação de perto quanto para quem escuta o relato pela primeira vez sem muito contexto prévio.
Chamar a própria relação de abusiva exige reconhecer, com coragem, um nível de gravidade que muitas pessoas ainda não estão prontas para admitir plenamente, seja por medo do que isso implica na prática, seja por vergonha diante de si mesma e dos outros, seja pela esperança persistente e íntima de que a situação ainda possa mudar de verdade com o tempo e com paciência.
O que essa confusão pode custar?
Quando uma situação de abuso real e grave é descrita apenas como “tóxica” de forma imprecisa, os passos seguintes tomados costumam ser inadequados: buscar terapia de casal para tentar melhorar a comunicação entre os dois, por exemplo, pode ser bastante perigoso quando existe controle e violência de fato envolvidos, já que esse tipo específico de abordagem terapêutica pressupõe uma responsabilidade compartilhada e equilibrada entre as duas partes envolvidas.
Taiza Tosatt Eleoterio pondera que nomear corretamente a situação vivida é o que orienta qual tipo de ajuda buscar em seguida: acompanhamento individual e medidas concretas de proteção em casos de abuso real, versus terapia de casal ou diálogo direto e aberto em casos de toxicidade mútua genuína, sem desequilíbrio real de poder envolvido entre as partes.
Como corrigir esse padrão de linguagem?
O primeiro passo real e necessário é observar o padrão concreto que se repete, e não apenas o desconforto emocional sentido: existe medo real e concreto de retaliação caso a relação termine? Existe controle real sobre decisões básicas da vida cotidiana da pessoa envolvida? Se a resposta for sinceramente sim, o termo mais preciso e honesto é abuso, mesmo que isso seja bem mais difícil de pronunciar em voz alta.
Na perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, corrigir esse erro de linguagem não é uma questão de rigor acadêmico vazio ou pedante, mas uma forma concreta de garantir que a pessoa em sofrimento receba o tipo certo de apoio, exatamente no momento em que mais precisa dele, sem que a gravidade real da própria situação seja minimizada por um vocabulário impreciso e suavizado demais.