O debate em torno da mortalidade por câncer de mama no Brasil ganha outra dimensão quando o Dr. Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues analisa os números a partir do momento em que a doença é descoberta. De acordo com dados divulgados pelo Ministério da Saúde, 20.165 mulheres morreram em decorrência da doença em 2023, uma alta de 38% em relação a 2014. O crescimento acompanha o envelhecimento da população, mas não se explica apenas por ele. Parte relevante dos óbitos está ligada a tumores identificados em estágio avançado, quando as chances de cura diminuem de forma expressiva.
Por que o estágio ao diagnóstico pesa tanto?
O câncer de mama é, ao mesmo tempo, um dos tumores mais frequentes entre as brasileiras e um dos que apresentam melhores resultados quando tratados cedo. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou cerca de 73,6 mil casos novos por ano no triênio de 2023 a 2025. Tumores pequenos e sem comprometimento dos linfonodos costumam ter tratamento menos agressivo e altas taxas de sobrevida. Nos estágios avançados, ao contrário, a terapia se torna mais complexa, mais longa e mais cara, e o objetivo muitas vezes passa a ser o controle da doença.
De acordo com análise do Dr. Vinicius Rodrigues, o estadiamento no momento do diagnóstico é o indicador que conecta a política de prevenção ao desfecho final. A quantidade de mamografias realizadas mostra o esforço do sistema, mas apenas a proporção de tumores descobertos em fase inicial revela se o esforço está funcionando. Quando essa proporção permanece baixa, o problema pode estar na cobertura do rastreamento, na qualidade das imagens ou na demora entre a suspeita e a confirmação. Cada hipótese pede uma resposta diferente da gestão.
Desigualdade que se traduz em óbitos
Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues problematiza a leitura baseada apenas em números absolutos de mortes. O Sudeste concentra a maior parte dos óbitos, mas também concentra a maior parcela da população feminina, o que torna indispensável observar taxas ajustadas por idade e a evolução de cada região ao longo do tempo. Em estados do Norte e do Nordeste, a distância até os serviços especializados, a escassez de radiologistas e mastologistas e a menor cobertura do rastreamento ajudam a explicar por que tantas mulheres chegam ao diagnóstico com a doença já disseminada.
Os obstáculos se acumulam ao longo do percurso assistencial. Uma mulher do interior pode precisar viajar para realizar a mamografia, voltar a viajar para a biópsia e enfrentar nova espera até a consulta com o oncologista. A Lei 12.732, de 2012, estabelece prazo de até 60 dias entre o diagnóstico e o início do tratamento no SUS, mas o cumprimento varia bastante entre os territórios. Afastamentos do trabalho, custo do transporte e responsabilidades familiares completam um quadro em que o atraso raramente tem uma única causa.
O que os dados de mortalidade ainda escondem?
As estatísticas oficiais dependem da qualidade das declarações de óbito e da integração entre diferentes bases de informação. O Sistema de Informações sobre Mortalidade registra a causa da morte, enquanto os Registros Hospitalares de Câncer acompanham o diagnóstico e o tratamento, mas as duas fontes nem sempre conversam entre si. Sem o cruzamento sistemático desses dados, fica difícil reconstituir a trajetória de cada paciente e identificar em qual etapa o sistema falhou, seja no rastreamento, na investigação ou no início da terapia.
A integração das bases abriria caminho para uma gestão orientada por evidências locais. Seria possível saber, por exemplo, quais municípios concentram diagnósticos tardios, quanto tempo cada região leva para confirmar um caso suspeito e qual a relação entre a distância percorrida e o estágio da doença. No panorama traçado por Vinicius Rodrigues, uma vigilância desse tipo permitiria direcionar recursos para os pontos de maior estrangulamento, transformando a mortalidade de dado consolidado no fim do ano em ferramenta de planejamento contínuo.